Eleições 2018: os temas e as retóricas que fizeram parte dos debates presidenciais

Nos confrontos analisados, a crítica e a sedução foram as estratégias persuasivas mais utilizadas


19/11/2018

Equipe CPOP

 

Desde o pleito de 1989, os debates transmitidos pela televisão têm se estabelecido como eventos significativos nas campanhas eleitorais brasileiras (VEIGA ET AL, 2007; VASCONCELLOS, 2011, 2014; LOURENÇO, 2010). Caracterizados como momentos de enfrentamento entre candidatos, esses encontros permitem que o eleitorado avalie os participantes, compare seus desempenhos e conheça suas propostas em cotejo com as apresentadas pelos demais concorrentes. De acordo com Vasconcellos (2014), devido às características do cenário político do Brasil, como o multipartidarismo e a existência do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) – que é um canal que permite a apresentação dos candidatos aos eleitores –, os debates no país possuem uma relevância diferente daquela conquistada em eleições internacionais¹. Aqui, assumem o papel de dispositivos complementares de informação política.

Considerando tais características dos debates eleitorais transmitidos pela TV, este comentário apresenta uma breve análise dos temas e das retóricas presentes em dois confrontos presidenciais realizados em 2018: o primeiro encontro entre os concorrentes ao Planalto, colocado no ar pela TV Bandeirantes no dia 9 de agosto; e o embate promovido pela RedeTV! no dia 17 de agosto. Ambos contaram com oito participantes, sendo eles Alvaro Dias (PODE), Cabo Daciolo (PATRI), Ciro Gomes (PDT), Geraldo Alckmin (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL), Henrique Meirelles (MDB), Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (REDE). Fernando Haddad teve sua candidatura lançada pelo PT somente em setembro, após Luiz Inácio Lula da Silva ter sido declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nos programas analisados, Lula não compareceu por ter sido impedido pela Justiça.

A análise de conteúdo realizada foi baseada em livro de códigos construído pelo grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP), possuindo 16 variáveis, distribuídas entre indexadoras, de aspectos simbólicos e relacionadas a conteúdo. A pesquisa se encontra em andamento. Este texto apresenta uma prévia dos resultados, lançando olhares para as variáveis de retórica e de tema. A primeira apresenta cinco categorias que definem a estratégia persuasiva dominante em cada trecho; a segunda identifica o tema que mais se sobressai nos segmentos do debate – caracterizados por trechos contendo fala de um candidato, jornalista/mediador ou eleitor –, conforme mostra a tabela abaixo.

Tabela 1 – Variáveis e categorias

Fonte: Grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) (2018).

A Tabela 2 apresenta as frequências e as porcentagens das retóricas utilizadas pelos candidatos no debate presidencial transmitido pela TV Bandeirantes. A retórica de crítica foi empregada em 42,8% dos segmentos, a sedução ficou em segundo lugar – presente em 31,7% dos trechos –, a retórica propositiva foi utilizada em 22,1% dos segmentos e os valores foram empregados em apenas 3,4%. A retórica de ameaça, por sua vez, não foi utilizada pelos candidatos no debate da emissora.

Tabela 2 – Frequência dos tipos de retórica na TV Bandeirantes

Fonte: Grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) (2018).​

A tabela 3 apresenta informações sobre os temas abordados durante o primeiro debate. Nota-se que na maioria dos segmentos, os locutores falam sobre mais de uma política pública – cardápio. Em segundo lugar, está “política econômica”, seguida de “metacampanha” – quando os candidatos constroem a sua própria imagem ou desconstroem a imagem de outro ator político. Os temas menos abordados são relacionados a emprego, meio ambiente e funcionalismo público.

Tabela 3 – Frequência dos temas na TV Bandeirantes

 

Fonte: Grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) (2018).

Na tabela 4, pode-se ver que, no debate realizado no dia 17 de agosto pela RedeTV!, a retórica mais utilizada pelos candidatos foi a de sedução. A crítica, primeira colocada no programa da TV Bandeirantes, fica em segundo lugar. O uso da retórica propositiva caiu, enquanto o uso da estratégia ligada a valores aumentou. Novamente, não houve ameaças.

Tabela 4 – Frequência dos tipos de retórica na RedeTV!

 

Fonte: Grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) (2018).

Quanto aos temas mais abordados, o cardápio seguiu na liderança, com 23,9%, pouco mais de um ponto percentual à frente do que foi apresentado no debate anterior. A metacampanha passa para o segundo lugar e a política econômica cai para terceiro. O tema “minorias” sobe duas posições, enquanto a educação cai quatro. Questões relacionadas à corrupção passam a ser mais discutidas, mas a Lava-jato, diferentemente do primeiro embate, não surge como tema predominante em nenhum segmento. Emprego aparece mais vezes nos segmentos do debate. Meio ambiente segue entre os temas menos discutidos, dessa vez acompanhado da saúde e das reformas.

Tabela 5 – Frequência dos temas na RedeTV!

 

Fonte: Grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) (2018).

Após a análise dos resultados, pode-se observar que as retóricas crítica e de sedução foram as mais utilizadas entre os oito candidatos que participaram de ambos os debates. Nos dois casos, a retórica de proposição, em que os concorrentes apresentam políticas públicas de maneira clara e objetiva, ficou em terceiro lugar, restrita a pouco mais ou pouco menos de um quinto dos segmentos totais dos programas. Os temas “cardápio”, “metacampanha”, “política econômica” e “política geral” despontaram entre os mais abordados tanto em um quanto em outro confronto.

 

¹ Para saber mais sobre a importância dos debates transmitidos pela TV no cenário político internacional, em especial no estadunidense, ver Chaffee (1978), Lemert (1993) e Benoit e Klyukovski (2006).

 

 

 

Referências

LOURENÇO, L. C. Los debates presidenciales en 1989: el peso de la campaña para decidir el voto presidencial. In: V Congreso Latinoamericano de Ciencia Política. Buenos Aires: ALACIP, 2010. v. 1.

VASCONCELLOS, F. Debates presidenciais na TV como dispositivos complementares de informação política no Brasil: Características e estratégias. In: Anais Eletrônicos do IX Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política. Brasília: ABCP, 2014. v. 1.

VASCONCELLOS, F.S. Quem se Importa com os Debates Eleitorais na TV? In: IV Encontro da Compolítica. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2011, v. 1.

VEIGA, L.; SOUZA, N. R. D.; SANTOS, S. A. D. Debate Presidencial: As estratégias de Lula e Alckmin na TV Bandeirantes. Política e Sociedade, 2007, 10, n. 1, p. 195-217.