Agentes políticos versus instituições jornalísticas: Jair Bolsonaro nos editoriais do jornal Folha de S. Paulo

Uma análise realizada com o software de análise lexical Iramuteq


09/12/2018

Deivison Santos

 

As eleições de 2018 não só ficaram marcadas pelo acirramento político entre os apoiadores dos candidatos à presidência, Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL), como também pelas críticas do último dirigidas às instituições jornalísticas tradicionais. Em especial, merece destaque as avaliações negativas de Bolsonaro e de parte de seus apoiadores direcionadas ao jornal Folha de S. Paulo (FSP), julgado como tendencioso e pouco confiável, além de ser criticado em rede nacional pelo político em uma de suas primeiras entrevistas como presidente eleito¹.

Apesar do crescimento de formas alternativas de comunicação associadas às redes sociais digitais, a mídia tradicional – aqui caracterizada pelos veículos impressos de comunicação – não perdeu seu protagonismo no que se refere a capacidade de pautar o debate público. Ademais, pesquisadores têm ressaltado a importância do Jornalismo como ator capaz de influenciar o andamento do processo político, partindo da perspectiva de que essas empresas, mais do que fontes de informações, também atuam como instituições dotadas de interesses particulares (COOK, 2011).

Visto isso, este texto tem por objetivo investigar quais foram os temas abordados nos editoriais² da FSP, no segundo turno da eleição, quando mencionava o então candidato à presidência Jair Bolsonaro. Para isso, foram coletados todos os editoriais publicados pela Folha entre os dias 8 de outubro de 2018 e 28 de outubro do mesmo ano. Em seguida, foram selecionadas apenas as peças que citaram “Bolsonaro” e falavam especificamente sobre o candidato a presidente, chegando em um total de 26 textos de opinião. Em um terceiro momento, o material foi analisado através do software de análise lexical Iramuteq³, por meio da aplicação do método de Classificação Hierárquica Descendente (CDH) e pela Análise Fatorial de Correspondência (AFC).

Avaliando os resultados obtidos, percebemos que os editoriais que mencionaram Bolsonaro se dividiram em 4 classes temáticas com tamanhos semelhantes, sendo a maior dela a classe 4 (27%) e a menor a classe 3 (23,2%). Os agrupamentos (classes) são divididos a partir de sua centralidade no corpus em análise, sendo organizados a partir do mais central (classe 1) ao mais periférico (classe 4). Dentro do primeiro agrupamento, notamos uma grande concentração de termos relacionados a assuntos do Legislativo Federal. Neste grupo, os textos mencionam aspectos vinculados a medidas apresentadas pelo presidente Temer e apontamentos feitos pela FSP acerca dos resultados eleitorais para o Congresso Nacional. A classe 2 destaca a preocupação do jornal sobre questões associadas a economia do país. Neste momento são abordadas as condutas defendidas pelo economista Paulo Guedes, a privatização de estatais e as flutuações do mercado financeiro ao longo da campanha. As duas últimas classes temáticas (3 e 4) estão bastante inter-relacionadas. Ambas tratam de aspectos ligados à campanha dos dois candidatos como, por exemplo, aparições e declarações públicas, análises sobre o desempenho nas pesquisas e manifestações de apoiadores.

Gráfico 1 – Dendograma, Classificação Hierárquica Descendente

Fonte: Autor (2018).

Através da AFC fica mais clara a relação entre as classes. Notamos que as classes 1 e 2 possuem um maior grau de independência diante dos outros clusters. No entanto, as classes 3 e 4 demonstram maior proximidade entre si. Ressalte-se que este tipo de análise permite a formação de clusters com termos que se relacionam entre si, mas que se diferem dos outros. Todavia, a proximidade entre eles pode ocorrer em razão do grau de conectividade entre as classes.

Gráfico 2 – Análise Fatorial de Correspondência

Fonte: Autor (2018).

Por fim, identificamos que, nos editoriais que citaram Bolsonaro, FSP dedicou atenção a questões que circundam o Legislativo brasileiro (incluindo medidas levantadas pelo Executivo), a vida econômica do país e a acontecimentos do período de campanha. É importante mencionar que em parte os editoriais não mencionam apenas o candidato do PSL, mas também o candidato petista. Futuras investigações podem aprofundar as descobertas sobre os meios pelos quais ambos os candidatos foram retratados nas peças opinativas do jornal, de forma a identificar as particularidades, críticas e análises feitas sobre cada um dos presidenciáveis.

 

 

 

² Espaço legítimo para o posicionamento institucional (EILDERS, 1999).

³ O software permite a delimitação de classes gramaticais específicas para a análise de acordo com o interesse do pesquisador. Na investigação aqui apresentada, as classes consideradas ativas foram os adjetivos, formas não reconhecidas, nomes comuns e verbos, levando em conta os elementos plenos do texto (CAMARGO; JUSTO, 2016).

 

 

REFERÊNCIAS

CAMARGO, B. V.; JUSTO, A. M. Tutorial para uso do software Iramuteq. 2016. Disponível em: < http://iramuteq.org/documentation/fichiers/Tutorial%20IRaMuTeQ%20em%20portugues_17.03.2016.pdf>. Acesso em: 04 de dez. 2018.

COOK, T. E. O jornalismo político. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 6, p. 203-247, julho/dezembro, 2011.

EILDERS, C. Synchronization of issue agendas in News and editorials of the prestige press in Germany. The International Journal of Communications Research, v. 24, n. 3, p. 301–328, 1999.

 

 

 

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